sábado, 23 de março de 2013

Um Método Perigoso (A Dangerous Method) - 2011



David Cronenberg possui toda uma identidade própria, desde seus enquadramentos de câmera até a forma como disseca um roteiro com rara habilidade, não menosprezando a inteligência do espectador; outra qualidade do diretor é transmitir através de suas lentes toda a bizarrice do mundo "humano", na maioria de suas obras Cronenberg analisa o comportamento humano como se ele não fizesse parte dessa espécie. Ninguém melhor para dirigir um filme com a temática da psicanálise do que esse "louco" diretor.

Com um elenco de peso o roteiro mostra o relacionamento de Carl Jung(Michael Fassbender) e Sigmund Freud (Viggo Mortensen) e todo seus estudos e debates sobre que caminho seguir para desvendar os mistérios sobre a mente humana. Freud acredita que todo comportamento sexual "anormal" é decorrente de distúrbios mentais; Jung acredita que seguir apenas essa linha de raciocínio limita seus caminhos.

"Um Método Perigoso" não é um filme fácil, os diálogos são complexos e a temática pode ficar massante para quem não se interessa pelo assunto. A produção entregou um ótimo trabalho de figurino, fotografia, montagem e até trilha sonora; tudo aqui funciona perfeitamente.

Destaque para o elenco que além dos já citados Michael Fassbender e Viggo Mortensen conta com Keira Knightley que vive Sabina Spielrein paciente e amente de Jung; ainda temos a excelente participação de Vincent Cassel como o enigmático Otto Gross.

"As vezes você precisa fazer algo imperdoável para continuar vivendo"

Essa frase dita por Jung no decorrer da projeção demonstra bem a crise existencial pela qual o mesmo passou durante seu doentio romance com sua paciente.

Talvez o cinema de Cronenberg seja para "loucos", mas talvez para estudar os loucos é preciso que você faça parte desse grupo. Mais uma exemplo de cinema de alto nível para um público peculiar.




sexta-feira, 22 de março de 2013

Rubber - 2011



Senso de humor e culhões resumem a personalidade do diretor Quentin Dupieux a mente por trás de "Rubber".

Por que culhões? Alguém já assistiu um diretor e roteirista colocar como protagonista um pneu ou algo do tipo? Esta certo que existem pérolas sensacionais como "Biscoito Assassino" e "A Camisinha Assassina", mas esses tem o foco principal no gênero trash; não que "Rubber" não possa ser rotulado da mesma forma, mas o diretor transmite sutileza plastica em seus enquadramentos e ainda brinca com algumas linguagens cinematográficas, transformando assim a exibição da película em algo no minimo curioso.

Inicio de projeção; deserto americano, muito sol e algumas cadeiras no caminho, o carro de policia para e o policial conversa com com o espectador, ele tenta passar a mensagem que vários clássicos da sétima arte não se explicam, fique com um trecho do monologo abaixo

No filme de Steven Spielberg, "E.T.", por que o extraterrestre é marrom? Nenhuma razão.
Em "Love Story", por que os protagonistas se apaixonam perdidamente? Nenhuma razão.
Por que não podemos ver o ar ao nosso redor? Nenhuma razão.
Por que estamos sempre pensando? Nenhuma razão.

Logo após um grupo de pessoas recebem binóculos para acompanhar a exibição do "filme"; e assim nos tornamos mais uma pessoa desse grupo e acompanhamos o "pneu" acordar e se descobrir como "gente", é difícil explicar(hehe), ele vai rodando pelo deserto e se desobrindo. Nosso amigo borrachudo(hehe) tem personalidade e após passar por cima de alguns objetos ele se encontra com uma garrafa de vidro, e estranha não conseguir amassar aquele objeto, então ele para, "pensa" e descobre seus poderes paranormais; após uma "tremidinha" o borrachudo consegue explodir a garrafa. Esse poder evolui e ele aprende explodir cabeças de animais e humanos.

A personalidade do pneu esta formada, se trata de um serial killer, que dorme, assiste tv, se apaixona por uma garota deliciosa e por que não um banho de chuveiro e até de piscina?

A crítica ao estilo de vida Americano e a homenagem aos filmes de assassinos psicopatas são alguns dos tópicos por onde o roteiro passeia. Bela fotografia e boas atuações do elenco "humano". Destaque para a beleza de Roxane Mesquida que desperta paixão platônica no borrachudo e em nós meros espectadores.

"Rubber" é uma brincadeira seria, cinema conceitual que foge do comum!



segunda-feira, 11 de março de 2013

Criaturas Da Noite (Night Junkies) - 2007


"Criaturas da Noite" não apresenta nada de novo, roteiro comum, direção simples, produção independente, mas tudo permeado por uma atmosfera sombria que torna a película um pequeno grande filme sobre vampiros.

Os chupadores de sangue aqui não possuem super poderes, muito pelo contrário, eles são colocados no mesmo patamar dos dependentes químicos, o sangue é a droga, o assassinato a culpa. A stripper Ruby Stone (Katia Winter) conhece Vincent Monroe (Giles Alderson) em um bar e logo iniciam um romance, ainda na primeira noite junto Ruby descobre que seu companheiro é um vampiro e ele a transforma em um ser das trevas. Acontece que a moça não consegue matar suas vitimas em potencial, e propõe ao amado que parem de se alimentar com sangue e curem seu vício.

O roteiro é feliz em traçar um paralelo entre a dependência de sangue dos vampiros para com os viciados em drogas ilícitas, em nenhum momento o roteirista faz questão de aprofundar os personagens, mas incrivelmente o espectador se identifica com o carisma do casal protagonista, apesar dos mesmos serem totalmente anti-heróis.

O vilão da película é caricato e assustador, a cena onde o sujeito lambe o rosto da prostituta que acabara de ser espancada por ele é sensacional, tudo isso permeado com uma trilha sonora ambiente que funciona perfeitamente com o clima vampírico que esta presente em cada cena. Essa trilha ainda conta com músicas góticas e blues e tem fundamental importância para a película.

O diretor e também roteirista Lawrence Pearce vai direto ao ponto e mostra tudo que o espectador procura nesse tipo de produção, sangue, sexo e romance, com algumas cenas graficamente belas, inclusive a cena de acasalamento dos protagonistas. "Criaturas da Noite" é um filme que nasceu para ficar na escuridão e ser apreciado por poucos habitantes que se aventuram através das sombras.




sexta-feira, 8 de março de 2013

O Santo (Sint) - 2010


Esse é um filme de Dick Maas. Você deve estar se perguntando por que começar a resenha dando ênfase nessa informação? Porque esse sujeito ai fez praticamente tudo no filme, direção, roteiro, trilha, produção entre outras coisas. Logo no início da película eu fiquei curioso por ver tantas vezes o nome do sr. Dick na tela, fiquei com boas expectativas, afinal eu gosto de cinema autoral, vai que o cara é um novo gênio perdido na Holanda, sim, o filme é Holandês, o que torna tudo ainda mais curioso.

A premissa é interessante e envolve a lenda de São Nicolau, uma espécie de Papai Noel daquele país, que procura se vingar por ser queimado vivo pelo povo. Transformar contos infantis em terror pode render bons filmes, e isso não aconteceu aqui. Sr. Dick atira para tudo quanto é lado e não decide se leva a história a sério ou se leva na brincadeira, a segunda opção certamente funcionaria melhor. O filme anda, anda e não sai do lugar, chove no molhado o tempo todo e não passa de mais um slasher.

O roteiro não foca em nenhum personagem, e só descobrimos quem é o protagonista porque o sujeito aparece mais em tela do que os outros atores, ou seja, não estamos nem ai se o cara vai morrer ou se vai viver. Algumas boas cenas salvam o filme do fracasso total, o velhinho filho da puta chamado de São Nicolau fugindo da polícia em seu cavalo branco no meio da cidade é graficamente bonita, assim como algumas cenas onde o diretor explora os bons efeitos especiais.

Querem saber mais sobre o Sr. Dick? Eu sei que não, mas informação é cultura(hehe). Surpreendentemente o cara foi diretor em vários filmes, alguns de destaque como o bom "Tiros na Escuridão" obscuro suspense que contava em seu elenco com William Hurt e Jennifer Tilly; também possui em seu currículo "Elevador da Morte" bom terror que foi um dos primeiros longas da linda Naomi Watts; nesses dois filmes o Sr. Dick também assina o roteiro.

"O Santo" não é nada mais que um poster bonito.




quinta-feira, 7 de março de 2013

Indomável Sonhadora (Beasts Of The Southern Wild) - 2012


Compreender uma obra cinematografica muitas vezes é um exercício que requer atenção a mínimos detalhes. Quando se trata de cinema indie isso é colocado a prova. No hype de filmes que se enquadram nesse perfil de cinema indepentende vem o aclamado "Indomável Sonhadora".

Acompanhamos o relacionamento de um pai com sua filha que estão longe do "sonho americano". No mundo deles a pobreza é gritante, a alegria melancólica e o futuro incerto. Hushpuppy( Quvenzhané Wallis) é a garotinha que procura entender o mundo que seu pai Wink(Dwight Henry) apresenta, um lugar onde os fortes devoram os fracos e apenas os corajosos sobrevivem.

A câmera subjetiva guiada pelo excelente diretor Ben Zeitlin nos coloca na visão da garota, na mágica que ela vê no mundo apesar de toda a miséria do seu dia a dia. Esse é o primeiro longa do diretor que é "abusado" sem parecer forçado e tem tudo para se tornar um dos melhores de sua geração.

Hushpuppy é interpretada pela excelente Quvenzhané Wallis que virou o novo xodó de Hollywood , com um carisma incrível a garota conquista o público por sua inocência ao viver de forma tão natural as dificuldades de sua personagem. Independentemente de como a atriz ira guiar sua carreira no futuro, essa atuação ficara marcada na história do cinema como uma das melhores interpretações feitas por uma criança.

Tudo na produção é simples e grandioso, a imaginação de uma criança se choca com a crueldade do mundo conteporâneo, uma metáfora que nos carrega para sonhos que podem não ser indomáveis, mas se tornam essenciais para a sobrevivência em mundo onde os animais irracionais são os humanos. Inesquecível!




quarta-feira, 6 de março de 2013

O Lado Bom Da Vida (Silver Linings Playbook) - 2012


Crítica feita por mim para o portalcritico.com

A produção mais badalada do momento é a comédia romântica assinada por David O. Russel diretor responsável por bons filmes como "O Vencedor" e "Três Reis". Em "O Lado Bom Da Vida" o diretor explora ao máximo um roteiro clichê que se mostra eficiente por conter personagens "fortes" e carismáticos.

A historia é sobre Pat (Bradley Cooper) um sujeito que acaba de sair de um sanatório e decide reconstruir sua vida. O problema é que o rapaz tem uma obsessão por sua ex-esposa que faz com que seu mundo gire em torno da mesma: tudo que ele faz de melhor é para impressioná-la.

Em um jantar na casa de um amigo, Pat é apresentado à Tiffany, uma bela viúva que também sofre de problemas psicológicos. Entre brigas e danças, o casal vai redescobrir "o lado bom da vida". A receita é simples: um casal de "malucos" buscando reconstruir suas vidas. Esta aí o delicioso "bolo" que se torna esse filme que é sucesso de publico e critica.

Destaque para a direção que explora o melhor de seus atores e também conta com um belo trabalho de câmera proporcionando eficientes e belos enquadramentos. Destaque também para o elenco encabeçado por Bradley Cooper que está excelente e entrega a melhor atuação de sua carreira até agora; e Jennifer Lawrence apresenta ótimo desempenho, mas não o suficiente para ser indicada ao Oscar. Vale ressaltar que a química do casal é perfeita, o que ajuda o espectador a se identificar com os personagens e "comprar" a história.

O elenco coadjuvante também chama atenção com Robert De Niro atuando de forma convincente como há muito tempo não fazia. Chris Tucker impagável e a eterna adolescente Julie Stiles aparece em uma participação discreta.

O Lado Bom Da Vida se aventura em clichês do gênero; tudo aqui apresentado já foi visto em outras produções. O grande mérito da produção foi não ser diferente de outros filmes com a mesma temática, mas tentar ser o melhor dentro da sua falta de originalidade. O resultado? A melhor comédia romântica dos últimos tempos!




domingo, 3 de março de 2013

Holy Motors - 2012


Holy Motors é um paradoxo, é um filme para se apreciar e tentar compreender as varias metáforas expostas no decorrer da projeção. Assinado por Leos Carax o roteiro não "aprofunda" seus personagens e não possui um história no sentido literal.

Acompanhamos um dia de trabalho de Oscar, um sujeito que não possui uma vida própria e com isso não desenvolve uma personalidade própria, ele vive de atuação, seu trabalho é viver a vida dos outros, é ser a pessoa que os outros gostariam que ele fosse, ele não existe e mesmo assim é essencial.

Oscar passa o dia em sua limousine onde possui um "camarim" com roupas e maquiagens para seu próximo trabalho/personagem, os poucos momentos onde não esta atuando são vividos com sua motorista Céline (Edith Scob) entre um compromisso e outro.

O grande mérito de Leos Carax é hipnotizar o espectador que entre emoções desconexas e estranhezas se sente curioso e visualmente seduzido a acompanhar esse película que imprime uma nova linguagem cinematografica.

Acima de tudo "Holy Motors" é uma homenagem ao cinema, os personagens vividos por Oscar fazem referência a gêneros e clássicos da sétima arte, facilmente encontramos o expressionismo, ficção cientifica, drama, comédia e ação. Espere até assistir a cena onde somos convidados a associar o que se passa na tela com a história de "A Bela e a Fera".

No elenco coadjuvante encontramos alguns rostos bem conhecidos como Eva Mendes e Kylie Minogue. Mas o destaque fica para a excepcional atuação de Denis Lavant que atua de forma quase "artesanal" dentro de personagens que estão atuando e vivendo uma vida que não os pertence.

Essa produção Francesa é um divisor de águas no cinema e será utilizada como estudo para novos e atuais amantes da sétima arte. Ao fim da projeção me questionei se a vida não seria um grande palco e nos pequenos atores em grandes atuações.




Lincoln - 2012



Crítica feita por mim para o portalcritico.com

O diretor Steven Spielberg é um nome que possui grande receptividade do público e da crítica, é um nome que se vende sozinho. E quando o diretor se junta como ator Daniel Day Lewis, um dos melhores do cinema contemporâneo, o resultado não poderia ser outro, Lincoln é um grande filme!

Para os mais desinformados, o filme não é uma biografia do ex-Presidente Americano, se resume na luta e na convicção de Lincoln para abolir a escravidão em meio a guerra civil americana. Diante disso fica o aviso que se trata de um filme político e que boa parte de sua projeção se passa dentro da Casa Branca e do congresso. Algumas cenas externas de muito bom gosto são mostradas no decorrer do longa, mas aqui o foco principal é outro.

Para manter a atenção do público, Spielberg escalou alguns nomes de peso para seu elenco coadjuvante: Tommy Lee Jones encabeça a lista com uma atuação monstruosa; Sally Field está digna de aplausos e ainda temos Joseph Gordon Lewit que sempre entrega boas atuações e aqui não foi diferente.

A produção está impecável; figurino, fotografia e sua emocionante trilha assinada por ninguém menos que John Williams. Tudo funciona como uma ópera pronta para embalar o espetáculo de Daniel Day Lewis.

Temos o raro caso onde personagem e ator se envolvem de tal forma que para muitos o próprio Lincoln encarnou em Daniel. Sem soar piegas com essas linhas, a atuação é tão magnifica que fica difícil descrever; sendo todos os adjetivos conhecidos insuficientes para resumir essa atuação.

Lincoln não é um filme fácil, mas torna-se uma experiência cinematográfica sem precedentes!